ENSAIO

Em defesa das avós que comem repolho com lesmas na literatura: por que precisamos dos vilões?

A avó do Jorge é uma figura peculiar. Só come repolho se tiver lesmas e lagartas juntas porque, segundo ela, é o que dá sabor. Além de que lagartas fazem bem para o cérebro. Na relação tirânica que tem com o neto, o ensina a comer uma centopeia bem grande e gorda lembrando que se deve sempre morder o bicho primeiro, antes que ele morda você com aquelas pinças na ponta do rabo. Ao menino, dirige apenas ameaças gentis em tom nada assombroso: como afirmar saber fazer todas as unhas caírem e crescerem dentes na ponta dos dedos. Ou ainda, como fazer o menino acordar com uma longa cauda no bumbum. Jorge se indagava: e se ela fosse uma bruxa?

Num ato de coragem, Jorge decide preparar um remédio poderoso que ou cure a rabugice ou acabe de vez com ela. No panelão ferveu um pouco de tudo: shampoo brilho de ouro para deixar a barriga dela limpinha por dentro, cremes depilatórios e curas definitivas para caspas, um desodorante cuja embalagem prometia "sem odores desagradáveis o dia inteiro", um frasco de perfume de flores de nabo, talco antipulgas para cães, temperou com mostarda em pó e ainda uma garrafa de molho de pimenta super forte. Adicionou umas quinhentas pílulas roxas cuja embalagem dizia "para cavalos com tosse de cachorro", pílulas suínas indicadas para "pelos podres e mal de leitão" e outras coisas mais. Depois da primeira colherada, uma baita queimação seguida de um crescimento que só foi ter fim quando a cabeça da avó chegou no telhado da casa. A bruxa velha estava gigante.

A história de Dahl segue ainda por outros caminhos fantásticos, nos levando a lembrar das aventuras de Alice e se desenhando até culminar num desfecho maravilhoso em que Jorge encara o leitor ciente de que "ele havia tocado com a ponta dos dedos os limites de um mundo mágico". É um livro divertidíssimo que me arrancou muitas risadas na leitura. Foi publicado pela primeira vez em 1981 e, apesar das inúmeras críticas aos problemáticos posicionamentos do autor, bem como aos mecanismos de censura que tentaram anos depois reescrever trechos de suas obras, encontro em sua narrativa sobre Jorge um algo que vem me chamando a atenção há alguns dias: a questão da maldade na literatura para as infâncias.

Recentemente li um texto de Vincent Jouve, numa edição de 2023 da La Revue des livres pour enfants, na qual ele trata da maldade nas histórias afirmando que "sem um vilão, não haveria nada para contar". Esse personagem, que muitas vezes revela o assombroso de nós, gera o desequilíbrio necessário para a força narrativa acontecer. No livro de Dahl, a avó tirânica personifica essa espécie de força perturbadora que move Jorge em sua criativa e árdua tarefa cujo enredo faz emergir as mais diversas emoções narrativas; seja da curiosidade sobre os efeitos daquele remédio ou mesmo o suspense que coloca o leitor na expectativa diante do plano do menino.

Jouve fala algo muito interessante sobre a identificação: o leitor não se identifica apenas com o herói, mas também com o vilão, figura esta que o permite vivenciar desejos reprimidos, impulsivos, imediatos. E aí outra coisa interessantíssima: Jorge não é plenamente bom. Ao mesmo tempo que manifesta nossa compaixão diante do autoritarismo da avó (essa expressamente malvada), é também o personagem que quer acabar com ela e curá-la do intenso mau humor com um "remédio" potencialmente perigoso. Jorge é humano. É retratado com a ambiguidade que compõe qualquer ser humano. A narrativa de Dahl me trouxe para essa espécie de desconforto moral. Um algo que tem lutado para permanecer na literatura pensada para as infâncias.

Algum tempo atrás me encontrei com um texto da Ana Garralón em que ela criticava essa insistência na bondade plena dos personagens: piratas bonzinhos, dragões covardes, lobos românticos. E saía em defesa de uma literatura cujos personagens possam ser ambivalentes, livros para as infâncias que possam não ser completamente seguros. Embora, de certa forma, Jorge triunfe sobre a figura opressora da avó, a narrativa me levou para esse espaço "não seguro" na leitura, ao mesmo tempo que me permitiu, enquanto leitora, vivenciar os sentimentos mais raivosos com a vilã-vovó-malvada. Ainda que incômodos como uma bolha no dedo do pé, vilões como a vovó nos possibilitam experienciar a literatura de uma forma muito mais saborosa — mesmo que envolva digerir lagartas, lesmas e centopeias. Em nenhum momento há uma redenção da vovó que se mantém totalmente fiel ao seu mau humor e à sua tirania. Acho que nisso reside então essa minha leitura na qual me entreguei ao sentimento de justiça junto de Jorge. Dahl não subestima o leitor, não entrega respostas. Vai na contramão: nos convida a tocar "com a ponta dos dedos os limites de um mundo mágico".

Gabrielly Sierra

GABRIELLY SIERRA

Sou licenciada em Ciências da Educação pela Universidade de Coimbra, mestre em Educação e Formação pela Universidade de Lisboa e especialista em Literatura Infantil e Juvenil pela Universidade de Caxias do Sul. Atuo com projetos de leitura, formação e curadoria voltados à literatura para as infâncias, desenvolvendo percursos de mediação de leitura, formação de educadores e experiências com o livro ilustrado em escolas, bibliotecas e instituições culturais.

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