3 conselhos para a pessoa adulta "Ler e Com-Viver” com histórias na primeira infância
Caros pequenos e grandes leitores desta carta, peço licença para dividir com vocês um pouco do meu mundo. Quando recebi o convite-pergunta da Sônia, havíamos acabado de nos encontrar em meio a muitas histórias. Sônia, com sua voz potente, enunciando cada palavra com encantamento e movimento, e eu, com o meu velho e contínuo amor pelas narrativas, assumindo confortavelmente o meu papel de leitora. No varal que atravessava a sala, as palavras de outras mestras dançavam conselhos. Bússolas da literatura para as infâncias. Em meio a tantas coreografias, eu bailava e me perguntava: mas afinal, por que lemos para as crianças?
Aconselhada por Manoel de Barros, avance com para o começo numa tentativa de chegar ao criançamento das palavras e encontrar uma resposta para minha indagação. Todos concordamos que a primeira infância é aquele período do ciclo vital que corresponde desde a etapa intrauterina até os seis anos de idade. Dura mais ou menos cerca de 2.190 dias, o que parece bastante. Mas quando menos se espera, aquela imagem enigmática do ultrassom 4D se transforma na da criança sorrindo banguela para uma foto, nas vésperas de completar o seu sétimo aniversário. No livro O que é uma criança?, a italiana Beatrice Alemagna resume bem isso quando diz que “uma criança é uma pessoa pequena. Ela só é pequena por pouco tempo, depois se torna grande. Cresce sem perceber (...) Uma criança não é criança para sempre. Ela se transforma”.
Todos concordamos também que há inúmeras pesquisas das mais diferentes áreas, da pedagogia à neurologia, evidenciando que a primeira infância é a etapa da vida que apresenta maiores possibilidades quanto à maturação e à aprendizagem. É a fase em que a plasticidade do cérebro é praticamente ilimitada, pois as crianças formam uma multiplicidade de conexões entre os neurônios em função das experiências que o meio lhes oferece. Todos concordamos ainda que a quantidade, a variedade e a qualidade desses estímulos podem ser determinantes para o desenvolvimento infantil. De todo modo, é imperativo reconhecer que as crianças têm uma extraordinária capacidade de aprender, de absorver informações como uma esponja e de responder criativamente às experiências a que o meio as sujeita.
Nesse cenário, assumimos o papel de quem oferece o material simbólico necessário para essa explosão criativa. E a literatura, muitas vezes em cena desde a etapa intrauterina, é quem começa a construir os alicerces para que esses sujeitos passem a habitar o mundo da linguagem. Mesmo sem entender as palavras e a lógica que as encadeia entre si, sabemos que a voz que entoa uma cantiga e que lê uma história provoca no bebê uma espécie de encantamento. Ao emprestar nossa voz aos textos, transcendemos o uso utilitário da linguagem e permitimos que as crianças aprendam a reconhecer as curvas da entonação e os múltiplos ritmos da linguagem. Isso envolve compreender a leitura além da decodificação e abrir horizontes para um processo permanente de diálogo e negociação de sentidos. Envolve reconhecer a criança da primeira infância como um leitor. Esse é o meu primeiro conselho.
Mais do que ofertar, é importante que nos atentemos ao que propriamente estamos ofertando para as crianças. À literatura para as infâncias, muitas vezes, se atribui a capacidade de se adequar, de divertir, de ensinar e, como diz brilhantemente Maria Tereza Andruetto, a condição central de não incomodar e nem desacomodar. Mas há quem entenda a literatura para as infâncias como, antes de tudo, literatura; ou melhor, como arte - tal como dizia a ensaísta e crítica literária brasileira Nelly Novaes Coelho. É o lugar para onde vamos quando queremos saber sobre nós mesmos ou ter acesso a um fragmento de mundo que não é o nosso, como explica a linda costura de palavras de Andruetto. Para essa autora, a literatura não é o lugar das certezas, mas sim o território da dúvida. É importante que tenhamos isso em mente no momento de selecionar o que vamos ler para uma criança.
Longe de ter respostas prontas, ao escolher o que será lido para os outros, estamos imaginando como podemos “intervir sem fechar sentidos” - expressão que empresto da argentina Cecília Bajour. Isto é, como podemos permitir que esses pequenos leitores nomeiem, sonhem, encontrem e decifrem as tantas vozes que expressam nossa humanidade comum nos textos e imagens que compõem a literatura para as infâncias - sobretudo numa fase em que tudo é experimentação, perguntas em aberto. E aqui vai o meu segundo conselho: escolham textos literários que os toquem e os façam questionar as próprias visões de mundo, textos abertos, desafiadores que provoquem perguntas e silêncios, rejeições e atrações. Textos que sensibilizem pela palavra e pela imagem. É importante que acreditem que as crianças também são capazes de lidar com textos que incomodam e desacomodam. (Muitas vezes nós, adultos, é que temos que refletir se podemos lidar com textos que nos incomodam e desacomodam.)
Para bem executar o segundo conselho, reforço que é muito, mas muito importante mesmo que o adulto se alimente de leituras e saberes. Ou seja, que ele seja um leitor. Não vou me estender com as pesquisas empíricas que comprovam essa relação. Mas, vou me deter num trecho de Aidan Chambers:
"Aqui há um livro maravilhoso, ali há um grupo de crianças, o que acontece em seguida? Em seguida fala-se (...) Quando nosso melhor amigo nos diz que leu um livro maravilhoso e pensa que nós também devemos lê-lo, o que faz para ajudar-nos a começar é dizer-nos o que nele encontrou. Assim nos familiariza com esse livro novo e, por isso, ameaçador. Diz-nos algo sobre seu enredo. Indica quais são as partes emocionantes. Diz-nos com que outros livros se parece, livros que ele sabe que já lemos. E compara-os ou fala sobre suas diferenças. São similares nestes aspectos, diz, e diferentes nestes outros. Também prepara-nos para as dificuldades. “Siga adiante até o terceiro capítulo”, pode dizer-nos o amigo, “é difícil até esse ponto, mas depois você não poderá parar”. Em outras palavras, convence-nos a ler o livro por nós mesmos. Isso é, exatamente o que os melhores promotores de leitura fazem sempre: convencer-nos a ler".
Sejam leitores. Esse é o meu terceiro conselho. Construam a própria bagagem de livros imprescindíveis na mesma medida em que estimulam as crianças a fazê-lo.
Na derradeira desta carta, avanço para o começo e retomo a minha indagação: afinal, por que lemos para as crianças? Bom, depois de tanto vasculhar pensamentos, sei que não lemos para exibir crianças superdotadas. Mas lemos, talvez, porque sabemos que a leitura permite que elas se tornem sujeitos de linguagem. Para que se transformem e transformem o mundo e para que exercitem possibilidades de pensamento, criatividade e imaginação. Para que comecem a descobrir não apenas quem são, mas quem gostariam e poderiam ser, como defende a brilhante Yolanda Reyes. Para que examinem o idioma das árvores e entoem as canções do vento, como canta a poética de Manoel de Barros, e deixem o verbo pegar delírio. Para que construam um mundo mais equitativo com iguais oportunidades de acesso e de expressividade. Para que criem e escrevam o texto da própria vida.
Se a mim perguntassem “o que você quer ser quando crescer?”, eu tranquilamente responderia: quero ser leitora. Nasci para ser leitora. Construtora de sentidos. Arquiteta de palavras. Professora aprendiz das funções da linguagem. Representante e defensora dos direitos do leitor, que incluem largar um livro chato pela metade ou pedir a um adulto para que, por favor, leia essa história de novo mesmo que seja a vigésima quinta vez… Que sejamos todos leitores.
Com carinho,
Gabi