Leitura e criação a partir das obras de Roger Mello
Projeto de leitura e criação a partir da obra de Roger Mello, com foco na relação entre literatura, imagem e linguagem visual.
As propostas exploram o livro ilustrado como objeto artístico, investigando possibilidades de leitura de imagem e criação narrativa.
Para dar forma à dúvida
relato de experiênciaJoão por um fio, de Roger Mello, chegou na minha vida tem já alguns anos. No primeiro encontro com o livro, o texto poético me fisgou. Foi amor a primeira lida. Na segunda leitura percebi que não tinha compreendido tudo. Já na terceira finalmente entendi que nossa relação seria sempre assim: a cada encontro o livro se renovaria e me faria pousar em novas dúvidas.
Esse foi o meu primeiro contato com a obra literária de Roger Mello. Daí em diante, o menino João, que me introduziu no universo literário desse autor, me acompanhou em cada nova descoberta. Com o tempo, fui alimentando uma admiração sem fim. Cada ilustração, cada palavra, cada silêncio. Era diferente do que eu já conhecia. Em cada leitura, acabava descobrindo alguma coisa nova. Aquilo me instigava. Virei fã e por onde passava alguém certamente iria me ouvir falando sobre algum livro do Roger Mello.
Nessa ânsia de compartilhar o misto de provocações que seus livros me causavam, o projeto de leitura começou a se desenhar naturalmente. Primeiro, no desejo de espalhar tais obras que tanto me espantavam. Depois, na vontade de desvendar camadas criativas da produção das ilustrações. Olhar mais atentamente para as cores e para o traço. Adivinhar os materiais e o tempo de secagem. Não sou ilustradora. Meus últimos desenhos foram os que meu avô enviou para serem publicados no Jornal. Contudo, a imprevisibilidade do resultado que alguns processos oportunizam me incentivam a tentar. Assim comecei o que, no meu lugar mais amador possível, chamei de experimentações. Não buscava representar o real ou uma cena exata do livro. Tentava mesmo era dar forma às minhas dúvidas.
Levar a proposta para uma sala de aula foi um prazer desafiante. Pela tendência em andar na contramão, eu insisto no discurso de que a literatura não ensina nada, apesar de reconhecer que ela nos educa profundamente porque nos humaniza, como aponta Antonio Candido; e que ela não está lá a serviço de trabalho algum, não é “ferramenta” nem “apoio”, apesar de reconhecer que ela pode gerar diálogos profundos sobre assuntos com os quais, antes, não tinhamos as palavras para articular. Isso me coloca numa situação um tanto complicada quando proponho projetos de leitura que se orientam pela experiência estética de leitura. Mas, como sempre, insistimos.
Em uma das realizações desse projeto tive a alegria de encontrar quatro professoras totalmente abertas ao que chamei de experimentações. Tanto que julgamos que seria possível realizar cada encontro com duas turmas de cada vez. O que me levou a mediar Roger Mello para grupos de, mais ou menos, 40 crianças, as quais tinham sempre muito, muito a dizer. Todas as crianças eram familiarizadas com os livros e com as leituras. Nas mediações acabavam por gerar discussões bastante profundas até. Nas atividades de experimentação, abraçavam as minhas provocações mais malucas que perpassavam por criar imagens que se mexiam ou criar um vazio na folha branca como se o peixe tivesse passado por lá. Juntos, exploramos a potência da folha branca, o movimento de fitas de cetim, a rigidez de uma dobra de papelão, bem como as múltiplas possibilidades a partir de uma linha de barbante de 30cm.
Quando chegamos ao fim da exploração de quatro obras do autor, entendi que havíamos criado uma espécie de vínculo. Aprendi que as experimentações poderiam funcionar como uma materialização da leitura que cada um havia feito. Nos momentos de apreciação no final das oficinas, eles tinham a oportunidade de observar o trabalho uns dos outros e se expressar sobre eles. Conheciam as outras leituras possíveis, se surpreendiam com soluções criativas encontradas pelos colegas. Eu, coração quente, me sentava confortavelmente para escutar.
Esse projeto já passou por diferentes escolas, por turmas completamente distintas. E, assim como João por um fio, é uma experiência que sempre se renova. Para mim, é ainda uma oportunidade de retornar para narrativas que tanto me encantam e espantam, encontrar novas respostas e novas perguntas. Penso ainda que tantos outros autores tem me provocado de forma semelhante, devo eu partir para outros processos de experimentação?